Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 4 – Se Deus pode ser imediatamente amado nesta vida.

O quarto discute-se assim – Parece que Deus não pode ser imediatamente amado nesta vida.

1. – Pois, o desconhecido não pode ser amado, como diz Agostinho. Ora, nós não conhecemos Deus imediatamente nesta vida, porque agora o vemos como por um espelho, em enigmas, como diz a Escritura. Logo, também não o amamos imediatamente.

2. Demais. – Quem não pode o menos não pode o mais. Ora, amar a Deus é mais que conhecê-lo pois, o que está unido ao Senhor, pelo amor, é um mesmo espírito com ele. Ora, o homem não pode conhecer a Deus imediatamente. Logo e muito menos, amá-lo.

3. Demais. – O homem separa-se de Deus pelo pecado, conforme aquilo da Escritura: As vossas iniquidades são as que fizeram uma separação entre vós e o vosso Deus. Ora, o pecado esta antes na vontade que no intelecto. Logo, o homem pode amar a Deus imediatamente, mas menos, do que imediatamente conhecê-lo.

Mas, em contrário, o conhecimento mediato de Deus é chamado enigmático e desaparecerá na pátria, como se vê na Escritura. Ora, a caridade não desaparecerá, conforme no mesmo lugar se lê. Logo, a caridade da via nos une diretamente a Deus.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, o ato da virtude cognoscitiva torna-se completo por estar o objeto conhecido no sujeito conhecente: ao passo que completo se torna o ato da virtude apetitiva pelo inclinar-se do apetite ao seu objeto. Por onde e necessariamente, o movimento da potência apetitiva há de tender para o objeto tal como ele é na sua natureza mesma; ao passo que o ato da potência cognoscitiva se consuma ao modo do sujeito conhecente. Ora, a ordem das coisas em si mesmas é tal, que Deus, em si mesmo, é cognoscível e amável, por ser a verdade e a bondade essenciais, pelas quais conhecemos e amamos os outros seres. Mas, nascendo dos sentidos o nosso conhecimento, nós conhecemos em primeiro lugar o que nos está mais próximo dele; e o último termo do nosso conhecimento é o que está em máximo grau deles afastado. Assim sendo, devemos concluir que o amor, enquanto ato da potência apetitiva, tende, mesmo na condição da vida presente, primariamente, para Deus, dele derivando para os outros seres; e portanto, a caridade ama a Deus imediatamente e, aos outros seres, mediante Deus. O contrário porém se dá com o conhecimento, porque conhecemos Deus por meio dos outros seres, como a causa pelo efeito; ou por meio de eminência ou de negação, conforme claramente o ensina Dionísio.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Embora não possa o desconhecido ser amado, isso não implica seja a ordem do amor a mesma do conhecimento. Pois, o amor é o termo do conhecimento. Portanto, quando acaba este, isto é, na coisa mesma, conhecida mediante outra, logo pode começar o amor.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O amor de Deus sendo algo de maior que o conhecimento do mesmo, sobretudo nesta vida, pressupõe esse conhecimento. E como o conhecimento não termina nas coisas criadas, mas, por elas, tende para outro termo, neste começa o amor, do qual deriva para outros seres. E realiza assim uma como circulação, pela qual o conhecimento, começando pelas criaturas, tende para Deus; e o amor, começando em Deus, como do fim último, deriva para as criaturas.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A caridade nos livra de nos separarmos de Deus, separação que é consequência do pecado; mas disso não nos livra só o conhecimento. Por onde, é a caridade que, amando à alma, imediatamente une com Deus, pelo vínculo da união espiritual.