Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se todos os seres desejam a paz.

O segundo discute-se assim. – Parece que nem todos os seres desejam a paz.

1. – Pois, a paz, segundo Dionísio, opera a união, dos consensos, Ora, em seres sem conhecimento, o consenso não é susceptível de união. Logo, não podem desejar tal paz.

2. Demais. – Um apetite não pode tender simultaneamente para termos contrários. Ora, muitos desejam a guerra e a dissensão. Logo, nem todos desejam a paz.

3. Demais. – Só o bem é desejável. Ora, há uma certa paz que parece má; do contrário o Senhor não dirá: Não vim trazer a paz. Logo, nem todos os seres desejam a paz.

4. Demais. – O que todos os seres desejam é o sumo bem, que é o fim último. Ora, tal fim não é a paz, pois, nós a temos, mesmo, nas condições da vida atual; do contrário, o Senhor teria ordenado em vão: Guardai paz entre vós. Logo, nem todos os seres desejam a paz.

Mas, em contrário, Agostinho diz que todos os seres desejam a paz. E o mesmo também diz Dionísio.

SOLUÇÃO. – Por isso mesmo que desejamos uma coisa havemos de desejar a consecução dela; e portanto a remoção dos obstáculos capazes de impedi-la. Ora, a consecução de um bem desejado pode ser impedida por um apetite contrário nosso ou de outrem, e ambos esses obstáculos a paz os elimina como já dissemos. Logo e necessariamente todos os seres que desejam hão de desejar a paz, por todos esses desejarem alcançar tranquilamente e sem impedimentos o que desejam; ora, nisso consiste essencialmente a paz, que Agostinho define a tranquilidade da ordem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A paz implica a união não só do apetite intelectual ou racional e do animal, que são susceptíveis de consenso, mas também, do apetite natural. E por isso, Dionísio diz, que a paz é operativa do consenso e da co-naturalidade; implicando o consenso a união dos apetites procedentes do conhecimento, e a co-naturalidade, a dos apetites naturais.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Mesmo os que procuram a guerra e as dissensões não desejam senão a paz, que consideram não possuir. Pois, como dissemos, não há paz quando concordamos com alguém, contrariando ao que mais queremos. Por isso, os homens procuram romper essa concórdia, onde há falta de paz, guerreando, afim de conseguirem uma paz em que nada lhes contrarie à vontade. Por onde, todos os que guerreiam procuram, com a guerra, alcançar uma paz mais perfeita do que a anteriormente possuída.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A paz consiste na quietação e na união do apetite. Ora, assim como o apetite pode buscar o bem real ou o aparente, assim também a paz pode ser verdadeira, e aparente. A verdadeira não pode existir sem o apetite do verdadeiro bem; porque todo mal, embora, de algum modo, pareça bem, e possa, por isso, aquietar o apetite, encerra contudo, muitas deficiências, que trazem o apetite inquieto e perturbado. Por isso paz verdadeira não pode ser senão a fundada no bem e a dos bons. Donde o ser a paz dos maus aparente e não verdadeira; e de aí o dizer a Escritura: Vivendo em grande guerra de ignorância, chamam paz a tantos e tão grande males.

RESPOSTA À QUARTA. – A verdadeira paz não podendo fundar-se senão no bem; e assim como possuirmos o verdadeiro bem de dois modos – perfeita e imperfeitamente, assim também dupla é a verdadeira paz. – Uma, perfeita, consistente no gozo perfeito do sumo bem, pelo qual todos os apetites se unem na quietude da união. E este é o fim último da criatura racional, conforme aquilo da Escritura. O que estabeleceu a paz nos seus limita. – Outra é a paz imperfeita, possuída neste mundo; porque embora a tendência principal da alma descanse em Deus, há contudo, certos obstáculos internos e externos, que perturbam essa paz.