Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a discórdia é pecado.

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O primeiro discute-se assim. – Parece que a discórdia não é pecado.

1. – Pois, discordar de alguém é separarmo-nos da sua vontade. Ora, parece não ser isto pecado, porque a vontade do próximo não é a regra da nossa, senão só a vontade divina. Logo, a discórdia não é pecado.

2. Demais. – Quem induz outrem a pecar também peca. Ora, despertar a discórdia entre outros não parece ser pecado; pois, diz a Escritura: Sabendo Paulo que uma parte era de Saduceus e outra de Fariseus, disse em alta voz no conselho: Varões irmãos, eu sou Fariseu, filho de Fariseus, acerca da esperança e da ressurreição dos mortos eu sou julgado. E quando isto disse, se moveu uma grande dissenção entre os Fariseus e os Saduceus. Logo, a discórdia não é pecado.

3. Demais. – No pecado, sobretudo o mortal, não caem os varões santos. Mas, entre eles também existe a discórdia, como se lê na Escritura: Houve tal desavença entre Paulo e Barnabé que se separaram um do outro. Logo, a discórdia não é pecado e sobretudo mortal.

Mas, em contrário, o Apóstolo coloca as dissenções, isto é, as discórdias, entre as obras da carne, das quais diz: Os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus. Ora, ninguém é excluído do reino de Deus senão pelo pecado mortal. Logo, a discórdia é pecado: mortal.

SOLUÇÃO. – A discórdia se opõe à concórdia. Ora, a concórdia como já dissemos é causada pela caridade, enquanto esta reduz muitos corações à unidade que é, principalmente, o bem divino e, secundariamente, o bem do próximo. Por onde, a discórdia é pecado pela razão de contrariar à referida concórdia. Mas devemos saber que essa concórdia pode ser eliminada pela discórdia, de dois modos: essencial ou acidentalmente. – Assim, dizemos ser essencial aos atos e aos movimentos humanos o que é segundo a intenção. Por onde, discordamos essencialmente do próximo, quando, ciente e intencionalmente dissentimos do bem divino e do bem do próximo, com o que devemos consentir. E isto é genericamente pecado mortal por contrariar à caridade; embora os primeiros movimentos dessa discórdia, por causa da imperfeição do ato, sejam pecados veniais. ­ Por outro lado, é acidental nos atos humanos aquilo que está fora da intenção. Por onde, quando certos tem na intenção um determinado bem concernente à honra de Deus ou à utilidade do próximo, mas desses, um pensa ser tal um bem, e outro tem opinião contrária, então a discórdia é acidentalmente contrária ao bem divino ou ao do próximo. E tal discórdia não é pecado nem repugna à caridade; salvo se estiver imbuída de erro sobre o necessário à salvação e ou se se lhe acrescentar indevidamente a pertinácia. Pois, como também já dissemos, a concórdia, efeito da caridade, é a união das vontades e não a das opiniões. Por onde é claro que a discórdia provém, às vezes, do pecado de um só, como, por exemplo, quando um quer o bem, ao qual outro cientemente resiste. Outras vezes porém provém do pecado de ambos, por exemplo, quando dissentem do bem, um do outro, e cada qual ama o seu bem próprio.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A vontade de um homem, em si mesmo considerada, não é a regra da vontade de outro. Mas quando a vontade do próximo se une à de Deus, torna-se, por consequência, uma regra regulada pela regra primeira. Logo, discordar de tal vontade é pecado, pois assim discordamos da vontade divina.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Assim como a vontade do homem que se une à de Deus é uma regra reta da qual é pecado discordar; assim também, a vontade humana contrária à de Deus é uma regra perversa da qual é bom discordar. Logo, provocar a discórdia, que elimina a boa concórdia, resultante da caridade, é pecado grave; donde o dizer a Escritura: São seis as coisas que o Senhor aborrece e a sua alma detesta a sétima; e essa sétima coisa diz ser o que semeia discórdia entre seus irmãos. Mas causar discórdia que elimine a má concórdia, isto é, a fundada na vontade má, é louvável. E deste modo, foi louvável que Paulo tivesse provocado dissensão entre o que eram concordes no mal; pois, também o Senhor disse de si não vim trazer paz, mas espada.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A discórdia irrompida entre Paulo e Barnabé foi acidental e não essencial; ambos queriam o bem, mas um o punha numa coisa e o outro, noutra. O que era próprio da imperfeição humana; mas, não havia entre eles controvérsia sobre o necessário à salvação. Embora isso mesmo fosse ordenado pela providência divina, por causa da utilidade daí resultante.