Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se o cisma é mais grave pecado que a infidelidade.

O segundo discute-se assim. – Parece que o cisma é mais grave pecado que a infidelidade.

1. – Pois, o pecado mais grave é punido com pena mais grave, conforme aquilo da Escritura: O número dos golpes regular-se-á pela qualidade do pecado. Ora, dá-se que o pecado de cisma é mais gravemente punido, mesmo que o de infidelidade ou de idolatria. Assim, lemos na Escritura, que por idolatria, certos foram imolados pela espada; pois, nela se lê, do pecado de cisma. Se o Senhor fizer por um novo prodígio que a terra, abrindo a sua boca, os engula com tudo o que lhes pertence, e que desçam vivos ao inferno, então sabereis que eles blasfemaram contra o Senhor. Também as dez tribos, que pelo vício de cisma, se separaram do reino de Davi, foram gravissimamente punidas, como esta na Bíblia. Logo, o pecado de cisma é pecado mais grave que o de infidelidade.

2. Demais. – O bem da multidão é melhor e mais divino que o de um só, como claramente o diz o Filósofo. Ora, o cisma encontra o bem da multidão, isto é, a unidade eclesiástica; ao passo que a infidelidade encontra a fé, que é o bem de um particular. Logo, parece que o cisma é pecado mais grave que a infidelidade.

3. Demais. – Ao maior mal se opõe maior bem, como está claro no Filósofo. Ora, o cisma se opõe à caridade, maior virtude que a fé, a que se opõe a infidelidade, como do sobredito resulta. Logo, o cisma é mais grave pecado que a infidelidade.

Mas, em contrário. – O resultante da adição com outra coisa, tem superioridade sobre esta, no bem ou no mal. Ora, a heresia é tal, pela sua adição com o cisma; pois, a este acrescenta um dogma pervertido, como resulta da autoridade de Jerônimo supra-aduzida. Logo, o cisma é menor pecado que a infidelidade.

SOLUÇÃO. – A gravidade do pecado pode ser medida à dupla luz: na sua espécie ou, nas circunstâncias. Ora, as circunstâncias particulares são infinitas e podem variar de infinitos modos. Por onde, quando se indaga em geral, qual de dois pecados é o mais grave, a questão deve entender-se da gravidade fundada no gênero do pecado. Ora, o gênero ou a espécie do pecado se funda no seu objeto, como do sobredito resulta. Logo, o pecado que contraria a um maior bem é genericamente mais grave; assim o pecado contra Deus o é mais do que o contra o próximo. Ora, é manifesto que a infidelidade é um pecado contra Deus mesmo, enquanto é em si a verdade primeira, objeto da fé; ao passo que o cisma encontra a unidade eclesiástica, que é um bem participado e menor do que Deus em si mesmo é. Por onde é claro, que o pecado de infidelidade é genericamente mais grave que o de cisma, embora possa dar-se que um cismático peque mais gravemente que um infiel, quer pelo seu maior desprezo, quer pelo maior perigo a que arrasta, ou por qualquer outra circunstância semelhante.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– Ao referido povo já era manifesto, pela lei que tinha recebido que só havia um Deus e que não devia adorar a outros deuses; o que lhe tinha sido confirmado por muitos sinais. Logo, não era necessário que, pecando contra essa fé pela idolatria, fosse punido por alguma pena desusada, senão só por uma pena comum. Mas não era sabido entre ele que deveria ter sempre Moisés como chefe. Por isso, rebelando-se contra o governo deste, era necessário fosse punido por uma pena miraculosa e desusada. Ou se pode dizer, que o pecado de cisma desse povo foi às vezes punido mais gravemente, por ser inclinado às sedições e aos cismas. Pois, diz a Escritura: De tempos antigos se tem esta cidade revoltado contra os reis e que nela se tem excitado sedições e guerras. Ora, às vezes uma pena maior é infligida pelo pecado mais habitual, como já estabelecemos. Pois, penas são remédios para afastar os homens do pecado; por isso, onde há maior inclinação para este deve ser aplicada pena mais severa. – Ora, as dez tribos não só foram punidas pelo pecado de cisma, mas também pelo de idolatria, como no mesmo lugar se diz.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O bem da multidão é maior que o de um indivíduo, que faz parte dela, mas, por sua vez, é menor que o bem extrínseco a que a multidão se ordena, assim como, o bem da ordem de um exército é menor que o bem do chefe. Semelhantemente, o bem da unidade eclesiástica, a que se opõe o cisma, é menor que o bem da verdade divina, a que se opõe a infidelidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A caridade tem dois objetos. Um principal, que é a bondade divina; outro secundário, e é o bem do próximo. Ora, o cisma e os outros pecados cometidos contra o próximo, opõem-se ao objeto secundário da caridade, menor que o objeto da fé, que é o próprio Deus. Por isso tais pecados são menores que o de infidelidade. Ao passo que o ódio de Deus, oposto ao principal objeto da caridade, não é menor. Contudo, entre os pecados contra o próximo, o de cisma parece ser o máximo, por encontrar o bem espiritual da multidão.