Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se se deve estabelecer algum preceito sobre a caridade.

O primeiro discute-se assim. – Parece que não se deve estabelecer nenhum preceito sobre a caridade.

1. – Pois, a caridade regula o modo de agir de todas as virtudes, que são objetos de preceito, sendo ela como é a forma de todas, conforme já se disse. Ora, o modo não é de preceito, segundo a opinião geral. Logo, não se devem dar preceitos sobre a caridade.

2. Demais. – A caridade, difundida em nossos corações pelo Espírito Santo, nos faz livres; pois, onde há o Espírito do Senhor, ai há liberdade, diz o Apóstolo. Ora, a obrigação nascida de preceitos opõe-se à liberdade, por impor necessidade. Logo, não se devem estabelecer preceitos sobre a caridade.

3. Demais. – A caridade é a principal entre todas as virtudes, a que se ordenam os preceitos, como do sobredito resulta. Ora, se se estabelecessem preceitos sobre a caridade, esses deveriam estar entre os principais, que são os do Decálogo. Ora, aí não estão. Logo, nenhuns preceitos se devem estabelecer sobre a caridade.

Mas, em contrário. – O que Deus exige de nós constitui objeto de preceito. Ora, Deus exige que o amemos como diz a Escritura. Logo, devem estabelecer-se preceitos sobre o amor de caridade, que é o amor de Deus.

SOLUÇÃO. – Como já se disse, preceito implica ideia de dívida. Por onde, uma coisa constitui objeto de preceito na medida em que implica a ideia de dívida. Ora, uma dívida pode existir de duplo modo; absoluta ou relativamente. Dívida, absolutamente considerada, é a que, em cada ordem de coisas, constitui um fim, por ter a natureza essencial de bem. Relativa é a dívida ordenada para um fim. Assim, o médico, em absoluto, deve curar; mas, relativamente, deve dar o remédio, que cura. – Ora, o fim da vida espiritual é unir o homem a Deus, e tal se dá pela caridade. E a isto se ordena, como ao fim, tudo o pertencente à vida espiritual. Por isso, diz o Apóstolo; O fim do preceito é a caridade nascida dum coração puro e duma fé não fingida. Pois, todas as virtudes sobre as quais se estabelecem preceitos, ordenam-se ou a purificar o coração do turbilhão das paixões, como o fazem as virtudes relativas a elas; ou, pelo menos, a nos dar uma boa consciência, como o fazem as virtudes relativas às ações; ou a nos dar uma fé reta, como é o caso das que pertencem ao culto divino. Ora, essas três coisas nos são necessárias para amarmos a Deus. Pois, o coração impuro se afasta do amor de Deus, por causa das paixões que o inclinam para as coisas terrenas. A má consciência, por seu lado, faz-nos ter horror da justiça divina, pelo temor da pena. A fé fingida, enfim, arrasta o afeto para aquilo que é simulado, de Deus, separando-nos da verdade divina. – Ora, em qualquer gênero, o absoluto tem prioridade sobre o relativo. Por isso, o máximo preceito é o da caridade, como diz o Evangelho.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– Como já dissemos, quando tratamos dos preceitos, o modo do amor não se compreende nos preceitos dados para os outros atos das virtudes. Por exemplo, o preceito – honra teu pai e tua mãe – não implica em isso fazer-se por caridade. Mas o ato do amor está compreendido em preceitos especiais.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A obrigação do preceito não se opõe à liberdade, senão para o de espírito avesso ao que é preceituado; tal o caso dos que só por temor guardam os preceitos. Ora, o preceito do amor não podemos cumpri-lo, senão de livre vontade. Logo, não repugna à liberdade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Todos os preceitos do Decálogo se ordenam ao amor de Deus e do próximo. Por isso, os preceitos sobre a caridade não foram enumerados entre os do Decálogo, mas se incluem em todos.