Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 8 – Se, dentre os frutos, a fé corresponde ao dom do intelecto.

O oitavo discute-se assim. – Parece que, dentre os frutos, a fé não corresponde ao dom do intelecto.

1. – Pois, o intelecto é fruto da fé, conforme a Escritura: Não crereis se não compreenderdes, segundo uma lição diferente da que temos: Se o não crerdes não permanecereis. Logo, não é a fé fruto do intelecto.

2. Demais. – O que está antes não pode ser fruto do que vem depois. Ora, é a fé anterior ao intelecto, porque é o fundamento de todo o edifício espiritual, como já se disse. Logo, não é a fé fruto do intelecto.

3. Demais. – Mais são os dons pertencentes ao intelecto que ao apetite. Ora, entre os frutos, só um, a fé, é considerado como pertencente ao intelecto; ao passo que todos os outros pertencem ao apetite. Logo, a fé não corresponde mais ao intelecto, do que à sabedoria, à ciência ou ao conselho.

Mas, em contrário, o fim de um ser é o seu fruto. Ora, o dom do intelecto ordena-se principalmente à certeza da fé, considerada como um fruto. Pois, diz a Glosa a fé, que é um fruto, é a certeza do invisível. Logo, dentre os frutos, a fé corresponde ao dom do intelecto.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, quando tratamos dos frutos, chamam-se frutos do Espírito Santo certos efeitos últimos e deleitáveis que nos proveem da virtude desse Espírito.

Ora, o que é último e deleitável é, essencialmente, fim, objeto próprio da vontade. Por onde e necessariamente, o último e deleitável, na vontade, é de certo modo, fruto de tudo o mais que pertence às outras potências. Sendo pois assim, podemos distinguir duas espécies de frutos do dom ou da virtude, que aperfeiçoa uma potência: um próprio da potência, outro, quase último, próprio da vontade. E a esta luz, devemos dizer, que ao dom do intelecto corresponde, como fruto próprio, a fé, isto é, a certeza da fé; e, como último fruto, a alegria, que pertence à vontade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O intelecto é fruto da fé, que é uma virtude. Ora, não é assim considerada a fé, quando tomada como fruto; mas sim, como uma determinada certeza da fé, a que chegamos pelo dom do intelecto.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A fé não pode, universalmente, preceder ao intelecto; pois o homem não poderia assentir, crendo, a certos artigos que lhe são propostos, sem, de certo modo, compreendê-los. Mas a perfeição do intelecto resulta da fé, que é uma virtude; de cuja perfeição procede uma determinada certeza da fé.

RESPOSTA À TERCEIRA. –O conhecimento prático não pode conter em si o seu próprio fruto, porque não vale para si mesmo, mas para outro. Ao contrário, o conhecimento especulativo encerra em si mesmo o seu fruto, a saber, a certeza daquilo a que se refere. Por onde, ao dom do conselho, que só pertence ao conhecimento prático, não corresponde nenhum fruto próprio. Aos dons, porém, da sabedoria, do intelecto e da ciência, que também podem pertencer ao conhecimento especulativo, só corresponde um fruto, que é o da certeza, expressa pelo nome da fé. Vários são os frutos, porém, considerados como pertencentes à parte apetitiva; porque, como já dissemos, a essência do fim, que implica o nome de fruto, pertence mais à virtude apetitiva que à intelectiva.