Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a adulação é pecado.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a adulação não é pecado.

1 – Pois, consiste a adulação em palavras laudatórias de outrem, ditas com a intenção de agradar. Ora, louvar a outrem não é mau, segundo a Escritura: Levantaram–se seus filhos e aclamaram–na ditosíssima; levantou–se seu marido e louvou–a. Do mesmo modo, querer agradar aos outros não é mau, conforme aquilo do Apóstolo: Em tudo procuro agradar a todos. Logo, a adulação não é pecado.

2 – Demais. – O bem é contrário ao mal; do mesmo modo, o vitupério, ao louvor. Ora, vituperar a quem é mau não é pecado. Logo, nem louvar o bom, o que parece constituir a adulação. Logo, a adulação não é pecado.

3 – Demais. – A adulação é contrária à detração; por isso, Gregório diz que o remédio contra a adulação é a detração. Pois, diz ele, para que Os elogios imoderados não nos ensoberbeçam, Deus permite na sua admirável providência que, quando vozes elogiosas nos elevam, a língua do detrator nos humilhe. Ora, a detração é um mal, como se provou. Logo, a adulação é um bem.

Mas, em contrário, àquilo da Escritura ­ Ai daqueles que cosem almofadinhas para as meterem debaixo de todos os cotovelos – diz a Glosa: isto é, a suave adulação. Logo, a adulação é pecado.

SOLUÇÃO. – Como dissemos a amizade referida, ou afabilidade, embora tenha como fim principal causar prazer aqueles com quem convivemos, contudo, quando é necessário, para conseguir um bem ou evitar um mal, não teme contristar. Por onde, quem quer de todos os modos falar a outrem para lhe causar prazer, excede o modo devido de fazer e portanto peca por excesso. E se o fizer com a só intenção de causar prazer, chama–se complacente, segundo o Filósofo; se porém tirar algum proveito, chama–se lisonjeiro ou adulador. Mas, comumente a palavra adulação costuma ser aplicada só aqueles que, excedendo o modo devido da virtude, querem agradar aos outros, na convivência ordinária, com palavras e obras.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Louvarmos a outrem pode ser um bem e um mal, conforme observarmos ou ultrapassarmos as circunstâncias devidas. Assim, se quisermos agradar a outrem louvando–o, para consolá–lo, a fim de que não sucumba à tribulação, ou ainda para que se esforce em progredir no bem, observadas todas as demais circunstâncias devidas, constituirá a referida virtude da amizade. Mas, será adulação se louvarmos a outrem naquilo que ele não merece ser louvado, ou por se tratar de coisas talvez más, conforme à Escritura: O pecador é louvado nos desejos da sua alma; ou não certas, segundo ainda a Escritura: Não louves o homem antes de ele falar. Ou ainda se houver lugar de temer que o louvado não seja pelo nosso louvor provocado à vanglória; donde o dito da Escritura: Não louves homem algum antes da morte. Semelhantemente, é louvável querer agradar aos outros para manter a caridade, a fim de podermos progredir nela espiritualmente. Mas seria pecado querer agradar aos homens por vanglória, para auferir algum lucro, ou ainda para o mal, conforme o diz a Escritura: Deus dissipou os ossos daqueles que contentam aos homens; e o Apóstolo: Se agradasse ainda aos homens não seria servo de Cristo.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Também censurar o mal é mau se não o fizermos nas circunstâncias devidas. E do mesmo modo, louvar o bem.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Nada impede dois vícios serem contrários. E assim, como a detração é um mal, também a adulação o é. A qual, pelas palavras que leva a proferir, é contrária à detração, mas não, diretamente e quanto ao fim. Porque o adulador busca causar prazer ao adulado; ao passo que a detração, praticada muitas vezes ocultamente, não visa contristar o detraído, mas antes, infamá–lo.