Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se o primeiro preceito do decálogo está bem formulado.

O segundo discute–se assim. – Parece que o primeiro preceito do decálogo está mal formulado.

1. – Pois, temos maiores obrigações para com Deus do que para com o nosso pai carnal, conforme às palavras do Apóstolo: Como não obedeceremos muito mais ao Pai dos espíritos e viveremos? Ora, o preceito de honrarmos os nossos pais é formulado afirmativamente, nestas palavras: Honra a teu pai e a tua mãe. Logo, com maioria de razão, devia ter sido formulado afirmativamente o primeiro preceito da religião, que manda honrar a Deus, sobretudo porque a afirmação tem anterioridade sobre a negação.

2. Demais. – O primeiro preceito do decálogo versa sobre a religião, como se disse. Mas, à religião, sendo uma virtude, cor responde um só ato. Ora, o primeiro preceito proíbe três atos. Assim, primeiro diz: Não terás deuses estrangeiros diante de mim. Depois: Não farás para ti imagens de escultura. E, enfim, terceiro: Não as adorarás nem lhes darás culto. Logo, o primeiro preceito está mal formulado.

3. Demais. – Agostinho diz que o primeiro preceito exclui o vício da superstição. Ora, há muitas outras superstições nocivas, além da idolatria, como se disse. Logo, não basta ser proibida só a idolatria.

Mas, em contrário, a autoridade da Escritura.

SOLUÇÃO. – É próprio da lei tornar os homens bons. Por isso, os preceitos de lei devem ser dispostos numa ordem conveniente, de modo a engendrar a bondade no homem. Ora, na ordem da geração, duas coisas devemos considerar. – A primeira: a parte que ocupa o primeiro lugar deve ser gerada primeiro; assim na geração do animal, primeiro é geral o coração, na construção de uma casa, primei o se lançam os fundamentos; e na bondade da alma, a primeira parte é a da vontade, que nos possibilita usarmos bem de qualquer outra vontade. Ora, a bondade da vontade depende do seu objeto, que é o fim. Por onde, naquele que a lei deve educar para a virtude, deve primeiro lançar o fundamento da religião, que ordena devidamente o homem para Deus, fim último da vida humana. – Em segundo lugar, devemos atender, na ordem da geração que primeiramente sejam eliminados as obstáculos e os impedimentos; assim, o agricultor primeiro amanha o campo para depois lançar a semente, como diz a Escritura : Alqueivai para vós o pousio e não semeieis sobre espinhos. Portanto, em matéria de religião, o homem deve primeiro ser educado de macio a se eliminarem os obstáculos à verdadeira religião. Ora, o principal obstáculo à religião é o homem prestar culto aos falsos deuses, conforme àquilo da Escritura: Não podeis servir a Deus, às riquezas. Por isso, o primeiro preceito da lei exclui o culto dos falsos deuses.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Também em matéria de religião há um preceito afirmativo: Lembra–te de santificar o dia do sábado. – Mas, deviam dar–se primeiro os preceitos negativos, que afastassem os impedimentos à religião. Pois, embora a afirmação seja naturalmente anterior à negação, contudo, na ordem da geração, a negação, que remove os impedimentos, é anterior, como se disse. E sobretudo, nas coisas divinas, em que as negações têm anterioridade sobre as afirmações, por causa da nossa insuficiência, como diz Dionísio.

RESPOSTA À SEGUNDA. – De dois modos certos observavam o culto dos deuses estranhos. Assim, uns prestavam culto divino a certas criaturas, sem recorrerem a imagens. Donde o dizer Varrão, que os antigos Romanos cultuaram muito tempo os deuses, sem imagens. E este culto era proibido, primeiro, pelo mandamento: Não terás deuses estrangeiros. Pois, os outros povos prestavam culto aos falsos deuses sob determinadas imagens. Por isso, foi também oportunamente proibido fabricar tais imagens, com o mandamento: Não farás para ti imagens de escultura. E o culto das mesmas, com o outro: Não as adorarás, etc.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Todas as superstições procedem de um certo pacto feito com o demónio, tácito ou expresso. Por isso, estende–se que todas estão proibidas, pelo mandamento: Não terás deuses estrangeiros.