Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 4 – Se as dúvidas devem ser interpretadas no melhor sentido.

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O quarto discute-se assim. – Parece que as dúvidas não devem ser interpretadas no melhor sentido.

1. – Pois, devemos fundar o nosso juízo naquilo que mais geralmente sucede. Ora, geralmente sucede que certos agem mal; pois, o número dos insensatos é infinito, como diz a Escritura E, noutro lugar: porque o sentido e o pensamento do coração do homem são inclinados para o mal desde a sua mocidade. Logo, devemos interpretar as dúvidas antes no mau que no bom sentido.

2. Demais. – Agostinho diz que vive pia e justamente o amante íntegro das coisas, que não favorece nem uma nem outra parte. Ora, quem interpreta o duvidoso no melhor sentido favorece uma das partes. Logo, não se deve fazer tal.

3. Demais. – O homem deve amar ao próximo como a si mesmo. Ora, em relação a si mesmo deve interpretar as dúvidas, no pior sentido, conforme àquilo da Escritura: Eu me temia de todas as minhas obras. Logo, parece que as dúvidas relativas ao próximo devem ser interpretadas no pior sentido.

Mas, em contrário, àquilo do Apóstolo – O que come não despreze do que não come – diz a Glosa: As dúvidas devem ser interpretadas no melhor sentido.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, é injuriar e desprezar a outrem o formar má opinião dele sem causa suficiente. Ora, ninguém deve desprezar a outrem ou lhe causar qualquer dano, sem causa que o obrigue. Portanto, onde não aparecem indícios manifestos da malícia de outrem, devemos tê-lo como bom, interpretando no melhor sentido o que é duvidoso.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– Pode acontecer que quem interprete no sentido mais favorável frequentemente, se engane. Mas, é melhor enganar-se mais frequentemente, formando opinião boa de um homem mau, do que enganar-se raras vezes, fazendo umá opinião de um homem bom. Porque, o primeiro modo de proceder injuria a outrem e o segundo, não.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Julgar as coisas é diferente de julgar os homens. – Pois, no juízo com que julgamos as coisas, não atendemos ao bem ou ao mal relativamente à coisa mesma de que julgamos, que nenhum dano. sofrem, seja como for que as julguemos. Mas, levamos em conta só o bem de quem julga, se o fizer com verdade; ou o mal, se julgar falsamente. Pois, a verdade é o bem do intelecto e o falso, o mal, como diz o Filósofo. Por isso, devemos nos esforçar por julgar as coisas conforme elas são. – Mas, nos juízos pelos quais julgamos os homens, atendemos principalmente ao bem e ao mal em relação aquele que julgamos. Porque é tido em conta de honrado, pelo fato mesmo de ser julgado bom; e de desprezível, se julgado mau. Por onde, devemos nos esforçar, em tais juízos, antes, por julgar bem de outrem, se não houver razão manifesta em contrário. Quanto a quem julga, o juízo falso pelo qual julga bem de outrem não implica em mal do seu intelecto, como também não lhe contribui para a perfeição conhecer a verdade; em si, dos particulares contingentes. Mas esse juízo implica, antes, a bondade do afeto.

RESPOSTA À TERCEIRA. – De dois modos podemos fazer uma interpretação em sentido pior ou melhor. – Primeiro, por uma certa suposição. E assim, quando tivermos que dar remédio a certos males, nossos ou alheios, havemos de supor o pior, para ministrarmos o remédio mais acertado. Porque, o remédio eficaz contra um mal maior será, com mais razão, eficaz contra o menor. – De outro modo, interpretamos, no bom ou no mau sentido, definindo ou determinando. E, então, ao julgar as coisas devemos nos esforçar pelas interpretar como elas são; no julgar, porém as pessoas devemos interpretar, no melhor sentido.