Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se é lícito adjurar os demônios

O segundo discute–se assim. – Parece ilícito adjurar os demônios.

1 – Pois, diz Orígenes: O Salvador não deu o poder de adjurar os demônios; porque tal prática é judaica. Ora, não devemos imitar o rito dos Judeus, mas, antes, usar do poder dado por Cristo, Logo, não é licito adjurar os demônios.

2. Demais. – Muitos, com encantações necromânticas, invocam os demônios, servindo–se de coisas divinas; o que é adjurar. Logo, se é licito adjurar os demónios, é licito usar de encantações necromânticas, o que é claramente falso. Portanto, também o é a primeira suposição.

3. Demais. – Quem adjura outrem entra por isso mesmo numa certa sociedade com ele. Ora, não é lícito entrar em sociedade com o demônio, como diz o Apóstolo: Não quero que vós tenhais sociedade com os demônios. Logo, não é licito adjurar os demônios.

Mas, em contrário, o Evangelho: Expulsarão os demônios em meu nome. Ora, adjurar é induzir alguém a fazer alguma coisa, com invocação do nome de Deus. Logo, é lícito adjurar os demônios.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, há dois modos de adjurar um, por deprecação ou induzimento, fundado na reverência a alguma causa sagrada; outro, por compulsão. Ao primeiro modo, não é l[cito adjurar os demônios; porque esse modo de adjurar implica uma certa benevolência ou amizade que não é lícito manter com eles. O segundo modo de adjuração, por compulsão, é lícito empregá–lo para certos fins e não o é para outros. Porque, no decurso desta vida, os demônios se constituíram nossos adversários. Ora, os atos deles não estão sujeitos à nossa disposição mas, à de Deus e dos santos anjos; porque, como diz Agostinho, o espírito transviado é governado pelo espírito justo. Podemos portanto, adjurando os demônios, por virtude do nome divino, repeli–los como inimigos para não nos fazerem mal, nem espiritual nem corporalmente, conforme ao poder divino dado a Cristo, segundo o dito do Evangelho : Eis aí vos dei eu poder de pisardes as serpentes e os escorpiões e toda a força do inimigo e nada vos fará dano. Mas, não é lícito adjurá–Ios para saber ou obter deles alguma coisa, porque isto implicaria em entrar em sociedade com eles. Contudo, por especial inspiração ou revelação divina, certos santos serviram–se da ação dos demónios para obterem certos efeitos; assim, lemos de S. Tiago, que, por meio dos demônios, conseguiu que Hermógenes fosse trazido à sua presença.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Orígenes se refere não à adjuração imperativa, a modo de compulsão, mas antes à feita por meio de uma benévola deprecação.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Os necromantes recorrem à adjuração e invocações dos demônios para saber ou alcançar deles alguma cousa; e isto é ilícito, como, se disse. Por isso Crisóstomo, expondo a palavra do Senhor, quando disse ao espírito imundo – Cala–te e sai desse homem explica: Dá–nos aí o salutar ensinamento de não crermos nos demônios por mais que anunciem a verdade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A objeção colhe quanto à adjuração pela qual imploramos o auxilio dos demônios, para fazermos ou conhecemos alguma coisa: pois, isto implica em ter sociedade com eles. Ao contrario, adjurar os demônios para repeli–Ias é apartar–se da sociedade deles.