Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se a astúcia é um pecado especial.

O terceiro discute-se assim. – Parece que a astúcia não é um pecado especial.

1. – Pois, as Sagradas Escrituras não induzem ninguém a pecar. Induzem porém à astúcia, conforme aquele lugar. Afim de se dar aos pequeninas astúcia. Logo, a astúcia não é pecado.

2. Demais. – A Escritura diz o astuto faz tudo com conselho. Mas para um fim bom, ou mau. Se para um fim bom, não parece ser pecado; se para um fim mau, parece implicar a prudência da carne ou do século. Logo, a astúcia não é um pecado especial distinto da prudência da carne.

3. Demais. – Gregório, expondo aquilo da Escritura – Zomba da simplicidade do justo, diz: A sabedoria deste mundo consiste em ocultar o coração com maquinações, disfarçar com palavras as intenções; exibir coma falso o verdadeiro, e fazer passar o verdadeiro por falso. E depois acrescenta: Esta prudência os jovens a aprendem pelo uso; e as crianças pagam para aprendê-la. Ora, isso que acabamos de referir parece pertencer à astúcia. Logo, a astúcia não se distingue da prudência da carne ou do mundo. E assim, não parece um pecado especial.

Mas, em contrário, o Apóstolo. Lançamos fora de nós às paixões que por ignominiosas se ocultam, não nos conduzindo com artifício; nem adulterando a palavra de Deus. Logo, a astúcia é um determinado pecado.

SOLUÇÃO. – A prudência consiste na aplicação da razão reta aos nossos atos, assim como a ciência, na aplicação da razão reta à nossa ciência. Ora, na ordem especulativa, podemos pecar de dois modos contra a retidão da ciência: de um modo, quando a razão é levada a alguma conclusão falsa, que parece verdadeira; de outro, por proceder a razão, de certos princípios, falsos, que parecem verdadeiros, para chegar, quer a uma conclusão verdadeira, quer a uma falsa. Assim também um pecado pode ser contra a prudência, tendo alguma semelhança dela, de dois modos. De um modo, pelo ordenar-se do esforço da, razão a um fim que não é verdadeiro bem, mas aparente; o que é próprio à prudência da carne. De outro, quando, para conseguirmos um fim, bom ou mau, usamos de meios não verdadeiros, mas simulados e aparentes; o que implica o pecado de astúcia. Por onde, esta é um determinado pecado oposto à prudência e distinto da prudência da carne.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– Diz Agostinho: assim como a prudência é às vezes abusivamente, tornada em mau sentido, assim, a astúcia às vezes também o é, em bom; e isso por semelhança de uma com outra. Propriamente falando, porém, a astúcia é tomada em mau sentido, como diz o Filósofo.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A astúcia pode ser considerada relativamente a um fim bom ou a um mau; nem devemos chegar a um fim bom por meios falsos e simulados, senão verdadeiros. Por onde, também a astúcia, mesmo ordenada a um fim bom, é pecado.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Gregório entende, por prudência do mundo tudo o que pode se incluir na falsa prudência. Por isso nesta também compreende a astúcia.