Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 8 – Se os referidos vícios nascem da avareza.

O oitavo discute-se assim. – Parece que os referidos vícios não nascem da avareza.

1. – Pois, como já se disse, é sobretudo, a luxúria que causa a falta de retidão racional. Ora; tais vícios se opõem à razão reta, isto é, à prudência. Logo, tais vícios nascem sobretudo, da luxúria; tanto mais quanto o Filósofo diz, que Vênus é dolosa e muitos são os seus laços; e que o de concupiscência incontinente age insidiosamente.

2. Demais. – Os referidos vícios têm certa semelhança com a prudência, como se disse. Ora, a prudência, tendo a sua sede na razão, parece mais se aproximarem dela os vícios mais espirituais, como a soberba e a vanglória. Logo, os referidos vícios parece nascerem antes da soberba que da avareza.

3. Demais. – O homem usa de insídia não só para roubar os bens alheios, mas também para maquinar a morte dos outros; sendo o primeiro modo de agir próprio da avareza, o segundo, da ira. Ora, usar de insídias é próprio da astúcia, do dolo e da fraude. Logo, os referidos vícios nascem, não só da avareza, mas também da ira.

Mas, em contrário, Gregório considera a fraude como filha da avareza.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos a prudência da carne e a astúcia juntamente com o dolo e a fraude têm certa semelhança com a prudência, por implicarem um certo uso da razão. Principalmente, porém entre as outras virtudes morais, usa da razão a justiça, que tem na sua sede no apetite racional. Por onde, o mau uso da razão também se manifesta sobretudo nos vícios opostos à justiça. Ora, o vício que se lhe opõe por excelência é a avareza. Por isso, os referidos vícios nascem dela, principalmente.

DONDE À RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A luxúria, por causa da veemência do prazer e da concupiscência, que causa, impede totalmente a razão de exercer-se. Ora, os referidos vícios usam, de certo modo, da razão, embora desordenadamente. Por isso, não nascem diretamente da luxúria. E quando o Filósofo diz que Vênus é dolosa, por uma certa semelhança o diz; pois, ela surpreende o homem de improviso, como acontece com o dolo. Contudo, não é a astúcia que lhe caracteriza o agir; mas antes, age pela violência da concupiscência e do prazer. Por isso acrescenta que Vênus faz perder o intelecto mesmo ao mais prudente.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Agir insidiosamente parece implicar uma certa pusilanimidade; pois, o magnânimo busca, em todas as circunstâncias, agir às claras, como diz o Filósofo. Por onde, tendo a soberba, ou afetando certa semelhança com a magnanimidade, daí resulta que os referidos vícios, que empregam fraude e dolo, não nascem diretamente da soberba. Tais processos são antes os da avareza, que busca o interesse, menoscabando a excelência.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A ira implica um movimento súbito; por isso age precipitadamente e sem conselho, como o fazem os referidos vícios, embora desordenadamente. E, quem usa de insídias para matar a outrem, não o faz por ira, mas antes, por ódio; pois, o iracundo procura fazer mal a outrem, às claras, como diz o Filósofo.