Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a virgindade consiste na integridade da carne.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a virgindade não consiste na integridade da carne.

1. – Pois, diz Agostinho, que a virgindade é a resolução de nos conservarmos perpetuamente incorruptos, na carne corruptível. Ora, resolver não pertence à carne. Logo, a virgindade não se funda na carne.

2. Demais. – A virgindade implica uma certa pudicícia. Ora, Agostinho diz, que a pudicícia depende da alma. Logo, a virgindade não consiste na incorrupção da carne.

3. Demais. – A integridade da carne parece consistir no sinal do pudor virginal. Ora, às vezes, sem prejuízo da virgindade, rompe–se esse sinal. Assim, diz Agostinho: Esse sinal pode, em diversos casos, ser destruído violentamente, como quando os médicos, em vista da saúde, fazem operações que causam horror à vista; e quando a parteira, como que explorando com as mãos a integridade de uma virgem, rompe–a, nessa operação. E acrescenta: Não julgo, que pense alguém tão estultamente; que sacrificou algo da santidade do seu corpo quem se viu privado da integridade desse sinal. Logo, a virgindade não consiste na incorrupção da carne.

4. Demais. – A corrupção da carne, sobretudo consiste na emissão do sémen, o que pode dar–se fora da cópula, durante o sono ou mesmo no estado de vigília. Ora, fora da cópula carnal não se pode perder a virgindade; pois, como diz Agostinho, a integridade virginal e a abstenção de toda relação carnal, por pia continência, é um estado angélico. Logo, a virgindade não consiste na incorrupção da carne.

Mas, em contrário, diz Agostinho, no mesmo livro, que a virgindade é a continência pela qual a integridade da carne é votada, consagrada e conservada ao Criador mesmo dela e da alma.

SOLUÇÃO. – O nome latino virginitas (virgindade) vem da palavra viror (vívidência). E assim como diz–se viridente e de persistente viridência o que não se tornou adusto, por superabundância de calor, assim também a virgindade está em a pessoa que a tem ser isenta do ardor da concupiscência, consistente na consumação dos máximos prazeres corporais, que são os venéreos. Donde o dizer Ambrósio, que a castidade virginal é a integridade isenta de contágio.

Ora, nos prazeres da carne, três elementos, temos a considerar: O primeiro é o concernente à violação do sinal da virgindade, e diz respeito ao corpo. O outro é a emissão do sémen, causa ao prazer sensível, e pela qual se une o que é da alma com o que é do corpo. O terceiro, que só diz respeito à alma, é o propósito de gozar esse prazer. Ora, desses três elementos, o que vem em primeiro lugar tem uma relação somente acidental com o ato moral, que, em si mesmo considerado, só se refere à alma. O segundo, porém, mantém uma relação material com o ato moral; pois, as paixões sensíveis são a matéria dos atos morais. Ao passo que o terceiro a eles se refere formal e completivamente; pois, os atos morais essencialmente se completam pelo elemento racional.

Ora, como a virgindade é assim chamada porque exclui a referida corrupção, daí resulta por consequência, que a integridade do órgão corpóreo tem com ela relação apenas acidental. Ao passo que a isenção do prazer, o qual consiste na emissão do sémen, com ela se relaciona materialmente. E enfim, o propósito mesmo de perpetuarnente nos abstermos desse prazer mantém uma relação formal e completiva com a virgindade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Essa definição de Agostinho abrange diretamente o que há de formal na virgindade; pois, pela resolução se entende o propósito racional. E o acréscimo que faz de perpétua, não se entende no sentido em que o virgem deva trazer sempre em ato no espírito essa resolução, mas que deve alimentar o propósito de nela perseverar perpetuarmente. Quanto ao elemento material ele o inclui indiretamente, quando diz incorrupção na carne corruptível. O que acrescenta para mostrar a dificuldade da virgindade; pois, se a carne não pudesse corromper–se, não seria difícil observar a resolução perpétua da incorrupção.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A pudicícia está por certo na alma, essencialmente, e na carne, materialmente. E o mesmo se dá com a virgindade. Donde o dizer Agostinho, que embora a virgindade seja conservada na carne, e seja assim corpórea, contudo é espiritual a que votada e conservada pela continência da piedade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como dissemos, a integridade do órgão corpóreo se relaciona acidentalmente com a virgindade, porque quem, por propósito da vontade, se abstém dos prazeres venéreos, conserva a integridade desse órgão. Por onde, se, por outro modo, vier a destruir–se essa integridade, isso não prejudica a virgindade mais do que a amputação de uma das mãos ou de um pé.

RESPOSTA À QUARTA. – O prazer resultante da emissão seminal pode ter lugar de dois modos. – Primeiro, se procede de um propósito da vontade. E então destrói a virgindade, quer se de na cópula carnal, quer fora dela. Agostinho se refere à cópula, porque por meio dela é que geral e naturalmente se produz a emissão. – De outro modo, ela pode dar–se sem o consentimento da alma, ou durante o sono, ou por uma violência feita, em que a vontade não consente, embora a carne experimente o prazer; ou ainda por enfermidade da natureza, como no caso dos que sofrem de fluxo seminal. E então não se perde a virgindade, porque essa polução não resulta da impudicícia, que a excluí.