Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se a profecia só tem por objeto os futuros contingentes.

O terceiro discute–se assim. – Parece que a profecia tem só por objeto os futuros contingentes.

1. – Pois, diz Cassiodoro, que a profecia é uma inspiração da revelação divina, manifestativa dos acontecimentos reais, na verdade imutável. Ora, os acontecimentos constituem os futuros contingentes. Logo, a revelação profética manifesta só os futuros contingentes.

2. Demais. – A graça da profecia entra na mesma divisão que a sabedoria e a fé, concernentes às coisas divinas; e a discrição dos espíritos, concernente aos espíritos criados, e a ciência, relativa às coisas humanas, como está claro no Apóstolo. Ora, os hábitos e os atos se distinguem pelos seus objetos, como já se bem estabeleceu. Logo, parece que a profecia não pode se referir a nada do atinente a nenhuma dessas graças.

3. Demais. – A diversidade do objeto causa a diversidade da espécie, como do sobredito resulta. Se, pois, há profecias, cujo objeto são os futuros contingentes, e outras, cujo objetos são outros, parece concluir–se, que essas profecias não são da mesma espécie.

Mas, em contrário, diz Gregório, que certas profecias se referem ao futuro, como aquela de Isaías: Eis que uma virgem conceberá e parirá um filho. Outras, ao passado, como a seguinte: No princípio criou Deus o céu e a terra. Outras, ao presente, como a do Apóstolo: Se profetizarem todos e entrar ali um infiel, as causas ocultas do seu coração se fazem manifestas. Logo, a profecia não tem por objeto só os futuros contingentes.

SOLUÇÃO. – A manifestação, que se faz por meio de um lume, estende–se a tudo aquilo que nesse lume se compreende; assim, a visão corpórea se estende a todas as cores; e o conhecimento natural da alma a tudo o que cai sob a ação do lume do intelecto agente. Ora, o conhecimento profético se realiza por meio do lume divino, pelo qual tudo pode ser conhecido, tanto o divino como o humano, tanto o espiritual como o corpóreo. Por onde, a revelação profética se estende a tudo isso; assim, a Isaías foi feita uma revelação profética sobre a excelência de Deus e dos anjos, pelo ministério dos espíritos, conforme aquilo da Escritura: Vi ao Senhor assentado sobre um alto e elevado sólio. E essa profecia também contém o que respeita os corpos naturais, segundo o passo: Quem é que mediu as águas com o seu punho? etc. Contém ainda o que respeita os costumes humanos, conforme o lugar: Parte o teu pão ao que tem tome, etc. E finalmente abrange o concernente aos eventos futuros, conforme as palavras: Em um só dia virão subitamente sobre ti estes dois males, a esterilidade e a viuvez.

Devemos porém considerar, que a profecia versa sobre o que é superior ao nosso conhecimento; por onde, tanto mais um assunto é objeto de profecia quanto mais sobrepuja o nosso conhecimento. Ora, esta superioridade é susceptível de tríplice grau. – O primeiro é o do que ultrapassa o conhecimento sensível ou intelectual de um determinado homem, mas não, o de todos os homens. Assim, pelos sentidos, pode uma pessoa conhecer o que lhe está localmente presente, o que, contudo, não o pode outra, sensivelmente, por lhe estar a cousa ausente; desse modo Eliseu conhece profeticamente o que, na sua ausência, faria o seu discípulo Giezé, como se lê na Escritura. E semelhantemente, as coisas ocultas do coração de um podem manifestar–se profeticamente a outro, segundo o Apóstolo. Desta maneira também o que um sabe demonstrativamente pode ser revelado, profeticamente. – O segundo grau é o das coisas, que ultrapassam em universal o conhecimento de todos os homens; não por não serem em si mesmas cognoscíveis, mas, por deficiência do conhecimento humano, assim, o mistério da Trindade, revelado pelo Serafim, quando disse: Santo, Santo, Santo, etc., como se lê na escritura. – O último grau é o das coisas superiores ao conhecimento de todos, por não serem em si mesmas cognoscíveis; tais os futuros contingentes, cuja verdade não é determinada. E como o que existe universalmente e por si tem prioridade sobre o que é particular e de existência mediata, por isso, à profecia propilssimamente pertence a revelação dos acontecimentos futuros, donde se derivou mesmo o nome de profecia. Donde o dizer Gregório: Sendo a profecia assim chamada porque prediz o futuro, perde essa denominação a razão de ser quando a profecia se refere ao passado ou ao presente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A profecia aí se define segundo o que é propriamente significado por esse nome. E também por este modo a profecia se distingue das outras graças gratuitas. – Donde se deduz clara a RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO. ­ Embora se possa dizer, que tudo o que pode ser objeto de profecia tem de comum o não poder ser conhecido do homem senão pela revelação divina; ao passo que a matéria da sabedoria, da ciência e da interpretação das línguas pode ser conhecida do homem pela razão natural; mas, de maneira mais alta, pela ilustração do lume divino. Quanto à fé, embora tenha um objeto invisível ao homem, contudo não lhe pertence conhecer aquilo em que crê, mas, ela nos faz assentir com certeza ao que é conhecido pelos outros.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O elemento formal no conhecimento profético é o lume divino, de cuja unidade a profecia tira a sua unidade específica, embora haja diversidade no que é manifestado profeticamente pelo divino lume.