Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se Cristo foi morto por outrem ou por si mesmo.

O primeiro discute-se assim. — Parece que Cristo não foi morto por outrem, mas por si mesmo.

1. — Pois, Ele próprio o diz no Evangelho: Ninguém tira de mim a vida, mas eu de mim mesmo a ponho. Ora, diz-se que mata a outrem quem lhe tira a vida. Logo, Cristo não foi morto por outrem, mas por si mesmo.

2. Demais. — Os mortos por outrem perecem pouco a pouco, àmedida que se lhe enfraquece a natureza. O que, sobretudo se dá com os crucificados; pois, como diz Agostinho, suspensos no madeiro são cruciados por uma morte prolongada. Ora, tal não aconteceu com Cristo, pois, dando um grande brado, rendeu o espírito, como refere o Evangelho. Logo, Cristo não foi morto por outro, mas por si mesmo.

3. Demais. — Os mortos por outrem sofrem morte violenta, e não voluntária, portanto; porque o violento se opõe ao voluntário. Ora, Agostinho diz que o espírito de Cristo não se separou do corpo sem que ele o quisesse, mas porque o quis, quando o quis e como o quis. Logo, Cristo não foi morto por outros, mas por si mesmo.

Mas, em contrário, o Evangelho: E depois de açoitá-lo tirar-lhe-ão a vida.

SOLUÇÃO. — Um agente pode causar um efeito, de dois modos. — Primeiro, produzindo-o diretamente pela sua ação. E, assim, os perseguidores de Cristo o mataram, porque lhe infligiram intencionalmente tratamentos capazes de lhe causarem a morte, com que efetivamente causaram, pois, das referidas causas proveio a morte subsequente. — Noutro sentido, um agente pode produzir um efeito indiretamente, quando, podendo impedi-la, não o faz; assim dizemos que é causa de outrem ser molhado quem não fechou a janela por onde entrou a chuva. E deste modo Cristo foi, ele próprio, causa da sua paixão e morte, pois, podia impedir tanto uma como outra. Primeiro, coibindo os seus adversários, de maneira que não o quisessem ou não o pudessem matar. Segundo, porque o seu espírito tinha o poder de conservar a natureza da sua carne, de modo que nenhuma ofensa física pudesse fazê-lo sucumbir. E esse poder a alma de Cristo o tinha, por estar unida a Deus na unidade de pessoa, como o diz Agostinho. Como, pois, a alma de Cristo não livrou o seu próprio corpo das injúrias que lhe eram feitas, mas quis que a sua natureza corpórea a elas sucumbisse por isso o Evangelho diz que pôs a sua vida ou morreu voluntàriamente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — No dito do Evangelho — Ninguém tira de mim a vida, subentende-se — contra a minha vontade. Pois, a palavra tirar, em sentido próprio, significa arrebatar alguma coisa a alguém, que não pode resistir, contra a sua vontade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Para mostrar que a paixão sofrida por violência não o privava da vida, Cristo conservou toda a sua vitalidade corpórea, a ponto de, no momento de expirar, ter clamado com alta voz. O que se lhe enumera entre outros milagres da sua morte. Donde o dizer o Evangelho: O Centurião, que estava bem defronte, vendo que Jesus expirava dando este brado, disse: Verdadeiramente este homem era Filho de Deus. – Também foi admirável na morte de Cristo o ter morrido mais ràpidamente que quaisquer outros padeceram sofrimentos semelhantes. Por isso, como refere o Evangelho, os que morreram com Cristo lhes quebraram as pernas, para morrerem mais depressa; tendo vindo depois a Jesus, como viram que estava já morto, não lhe quebraram as pernas. E Marcos diz que Pilatos se admirava que Jesus morresse tão depressa. Assim, pois, como por sua vontade a sua natureza corpórea conservou-se vigorosa até o fim assim também, quando quis; subitamente cedeu aos ferimentos que lhe tinham sido feitos.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Simultaneamente Cristo sofreu a violência de que morreu, e contudo morreu porque o quis; pois a violência, que lhe foi feita ao corpo, só veio a prevalecer sobre ele, quando o quis Cristo.