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A verdade sobre a Guerra do Paraguai

Postado em 11-09-2019

Jarbas Passarinho

Os livros didáticos de História do Brasil adotados nas escolas públicas brasileiras se revelam odientos e mentirosos acusando o Brasil de haver se apossado de parte do território paraguaio. Indício claro de que o ressentimento dos derrotados por três vezes recua, na história, à Guerra contra o Paraguai, de 1865 a 1870. Seus editores e autores são energúmenos como historiadores e ignorantes como brasileiros, pois melhor deveriam conhecer os fatos históricos, mesmo os sonegados pela cátedra revanchista, marxista e incompetente.

Quando o ditador Solano Lopez iniciou as hostilidades, os aliados concertaram o tratado da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) que se propunha “respeitar a independência, a soberania e a integridade territorial do Paraguai”. O Brasil tinha, de fato, velha pendência territorial com a República Paraguaia, herdada dos tempos coloniais, proveniente do Tratado de Madri de 1750 e do de Santo Ildefonso, de 1777. Com a independência de nossos países, não se logrou logo a eliminação da discordância quanto à linha da fronteira. No tratado de Madri, Portugal se arrimou no princípio do uti possidetis, o direito de propriedade do Paraguai à faixa de terra entre o rio Igureí e o Salto das Sete Quedas, no Tratado Preliminar de Paz, de 1872, desde que a Argentina igualmente abandonasse o direito à posse de todo o Chaco paraguaio, que o Tratado de Tríplice Aliança lhe atribuía. Como a Argentina não concordasse, o Brasil negociou em separado com o Paraguai. E mais: empenhou-se em defender os interesses do vencido, junto ao presidente norte-americano Hayes, árbitro da disputa do Paraguai com a Argentina, do que decorreu a manutenção do Chaco como território paraguaio. É verdade que,em 1872, ao ceder a linha do rio Igureí ao Paraguai, no traçado da fronteira, assegurávamos a divisa do rio Apa, encerrando uma divergência centenária, o que acabou definitivamente ao construirmos a usina hidrelétrica de Itaipu, com a submersão total das Sete Quedas.

Fui testemunha de uma cerimônia comovente, no transcorrer do governo João Figueiredo. Em 1980 acompanhei-o em viagem a Assunção. O presidente brasileiro levava ao presidente Ströessner a espada do marechal Solano Lopez, retirada do acervo do Museu Histórico brasileiro. Nem mesmo foi feita uma réplica, para manter em seu lugar, lembrando a vitória na guerra. Os generais paraguaios, ao verem a espada, abraçaram-se lacrimejantes. O gesto de amizade parecia varrer resíduos de animosidade ainda persistentes. Não devolvemos terras porque não as usurpamos. O Brasil nunca fez guerras de conquistas. Nossas fronteiras decorrem de laudos arbitrais internacionais, respeitados mesmo quando prejudicados fomos pelo rei da Itália, árbitro da nossa pendência com a Inglaterra, nos limites com a Guiana Inglesa. Ele deu aos ingleses a depressão do Pirara, mais que os britânicos pediam…O Acre, o adquirimos da Bolívia, não sem antes o presidente Campos Salles haver garantido a soberania sobre as terras virgens, que foram povoadas por seringueiros nordestinos, vítimas das secas, sublevados por Plácido de Castro. Isso, certamente, os autores dos livros didáticos adotados pelo MEC e pela Secretaria de Educação de Minas Gerais desconhecem. Deformam a História Pátria e têm servido para professores, em suas aulas nos estabelecimentos de ensino médio, inocularem na mente dos nossos adolescentes que a guerra contra o Paraguai foi um crime que fizemos para servir ao imperialismo inglês. Dizem, ainda, a serviço de uma ideologia fácil de identificar, que praticamos um deliberado genocídio do povo paraguaio. Revoltante embora, esses supostos mestres vão fazendo prosélitos nos jovens. A falsificação história tripudia sobre os cadáveres de milhares de brasileiros, nos cinco anos de luta. Desde o sacrifício de Antônio João, ao imolar-se em Dourados, até o epílogo nas cordilheiras paraguaias. Preferindo à desonra de render-se às tropas inimigas enormemente superioras, o simples guia Antônio João morreu no combate desigual, não sem antes deixar escrita a mensagem que escrevera para a retaguarda: “Sei que morro, mas o meu sangue e o dos meus camaradas servirão de protesto solene contra a invasão do solo da minha pátria”. Para os nossos imberbes estudantes, Antônio João era um desprezível peão no tabuleiro imperialista, Mato Grosso nunca foi invadido, Alfredo d’Escragnhole Taunay inventou a narrativa da Retirada da Laguna e o Rio Grande do Sul nunca foi atacado e parcialmente ocupado, nas ações ofensivas que nos tomaram de surpresa. Enquanto Solano Lopez, ao nos impor a guerra, pôde mobilizar, desde logo, setenta mil combatentes, D. Pedro II tinha apenas pouco mais de quinze mil, dispersos no nosso território. O ditador paraguaio, sentindo-se forte, invadiu a Argentina, que lhe negou permissão para atravessá-la com as tropas que visavam a chegar a Uruguaiana, e declarou-lhe guerra e ao Uruguai. Só isso basta para caracterizar o agressor.

Na guerra, a vitória exige a conquista de dois objetivos: o político, a ocupação da capital do inimigo, e o militar, a derrota total da capacidade de luta das suas tropas. Conquistada Assunção, o marquês de Caxias regressou à capital do Império em 19. 01. 1869 e recebeu o título de duque em 23 de março do mesmo ano. Sem a menor possibilidade de resistir, o marechal Lopez levou suas últimas reservas, mínimas aliás, a Cerro Corá. Repeliu a derradeira intimação da vanguarda brasileira, já ferido mortalmente: “Não me rendo. Morro por minha pátria”. É cultuado como um herói. Mas é de convir que foi ele o grande responsável pela dizimação do seu povo, na medida em que jamais aceitou negociar a paz e, uma vez destroçadas as tropas regulares, recompletou-as recrutando adolescentes e crianças. Só com sua morte em 01.03.1870, a guerra acabaria. Sua bravura, sem pensar no sacrifício imposto ao seu próprio povo, só aos paraguaios diz respeito. A nós cabe respeitar nossos mortos honrando seus feitos e não omiti-los ou desmerecê-los como fazem certos autores e professores brasileiros que deturpam a verdadeira História do Brasil.

 

Reproduzido do periódico do Grupo Inconfidência, nº 267, agosto de 2019.